Autenticidade e factos

O fumo que sai do tacho suspenso, o fogareiro que irrompe da areia e se torna pequeno para tanta vontade, o homem que, vestindo uma velha camisa e um boné, cozinha de joelhos na praia… este é o primeiro plano de uma imagem de Noel de Magalhães, fotógrafo que há muito se dedica a registar as “paisagens vivas” do Douro. É uma imagem documental pelo passado que emana, pelo preto e branco que transpira, pela intimidade que se sente a céu aberto. É uma imagem que desde cedo me chamou a atenção, e que seleccionei para figurar numa revista sobre a região duriense.
O curioso é que, no dia do lançamento da revista, e graças à versatilidade da imagem fotográfica, consegui uma dedicatória de Noel de Magalhães, mesmo por cima da sua própria imagem, afinal assinar uma cópia em papel não é um sacrilégio… e depois de mim outras pessoas seguiram o exemplo.
Aquele momento, partindo do pressuposto que eu nem sequer imaginava que Noel Magalhães ainda era vivo, situava-se fora do tempo, era um privilégio, porque me permitia partilhar esta imagem com quem de facto a viu e registou, acrescentando a tudo isto uma prova, a dedicatória.
Estamos assim perante três elementos de prova: a imagem, o texto e a pessoa. As duas primeiras linguagens, apesar do seu fácil acesso, transporte, cópia e manipulação, apresentam-se como documentos do que realmente existiu, participando na construção da memória colectiva e individual, e que, uma vez em conjunto se reforçam e potenciam na procura do verdadeiro e genuíno.
O terceiro elemento, a pessoa, mesmo sendo a mais limitada no tempo, e não oferecendo igualmente garantia de fiabilidade, é no entanto, a prova que, no conjunto das três, maior autenticidade aufere à realidade dos factos.
Não é por acaso que esta semana foram noticiadas duas mortes de “testemunhas”, a de Tsutomu Yamaguchi – o último sobrevivente das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki – e Miep Gies – a última guardiã do diário de Anne Frank – como sendo acontecimentos de relevo. Estas pessoas eram como que o último elo verdadeiro para com os acontecimentos que presenciaram, eram aqueles que mais do que textos e imagens podiam atestar a veracidade do passado em causa.
No entanto alguma tranquilidade existe, porque sabemos que para além da vida sempre existirão textos e imagens que nos recordem e autentifiquem o passado, garantindo a sobrevivência da nossa memória – colectiva e individual – e da nossa civilização.



