Imagens para a banda sonora do Porto 02
Somos muitos no planeta e ficamos indecisos. Partilhamos o território ou dividi-mo-lo em parcelas cada vez mais pequenas? Os sanitários do tipo “performance individual” aludem a esta indeterminação com alguma eloquência. O que é mais forte? A fronteira daquele pedaço que escolhemos para dar largas à premência marcadora, ou o facto de sabermos que outros como nós se inclinaram para aquele canto e partilharam alegremente a mesma parcela? A primeira imagem mostra os sanitários do Rés do Chão do Centro Comercial Stop (aliás Centro de salas de ensaio Stop) em 2007. Apetece colocar por cima de cada colector individual: deathmetal; trashmetal; funk; jazz; grunge; hardrock… Cada aficcionado passaria a marcar ordeiramente o colector da sua eleição, juntando-se assim aos adeptos antecessores e vindouros. A partilha do território estabelecer-se-ia assim em corredores estreitos estendidos no tempo e sem pontos de contacto no espaço. Como diria o grande Líder Luciano Barbosa: “Paralelos do ritmo. Por mais que toquem, nunca se encontram.” Hoje, os mesmos sanitários já não têm tantos colectores. Foram retirados de forma sistemática, um sim, um não (na segunda imagem temos os mesmos sanitários em 2009). Tendemos para corredores cada vez mais distantes, que cortam definitivamente qualquer hipótese de contaminação, ou caminhamos para um dispositivo contínuo que, no tempo, se transforma em plano aberto? (Perguntou aquela figura, dois andares acima, enquanto espreitava da sua cela para o corredor do Centro Comercial).
Anselmo Canha





