Indício perceptível de quê?

O silêncio pode ser um espaço vazio por preencher. Uma paisagem onde o espectador implícita e explicitamente pode fazer uma digressão, que será possível imaginar uma cidade dentro de uma sala vazia que não necessite de comprovação histórica. Desses itinerários deixam-se prevalecer os aspectos mais relevantes do nosso micro cosmos como ponto de partida para delinear um rumo metamorfoseando a nossa relação esplendorosa e contínua com o mundo.

Sabe-se muito pouco sobre o universo das imagens do pensamento. Contudo todas elas partem sempre de uma reflexão inteligente sobre o silêncio. Elas não obedecem a uma lógica narrativa, por vezes sustentam-se a partir de uma amálgama de histórias que não obedecem a uma lógica temporal. Onde o ontem, o hoje e o amanhã não se distinguem mas que determinam uma evidência daí resultante: estamos vivos e capazes de sustentar a hipótese da morte. Por isso, as imagens do pensamento são uma configuração intelectual das emoções, das ideias que estabelecem a justa proporção entre a vida e a morte, e sobretudo os limites do real que se criam entre uma e outra, tangencialmente desconhecidos.

Tudo isto a propósito destas imagens de uma sala vazia, completamente branca que existia na exposição “Desconhecido” do Korda, em Lisboa. Talvez esta sala tenha implicações com a minha desilusão da amálgama das imagens desconhecidas daquele cubano que nos mostrou o retrato do “che” como um ícone épico criado a partir do âmago do sonho de várias gerações. E da minha também. É esta imagem do pensamento que transporto há uma vida inteira, mas que só agora compreendi como ela se autonomizou do seu contexto real e do repertório do autor que a fabricou. Esplendorosa deslocalização de cuba do korda, até porque de uma escassa centena de imagens que fazia parte daquela exposição só existiam duas ou três do che guevara. Indício perceptível de quê?

Adriano Rangel (jan.2010)