Joshua Benoliel, Chegada de Afonso Costa a Lisboa, 1912
O tema desta fotografia de Joshua Benoliel indicia o seu carácter de reportagem: Chegada de Afonso Costa a Lisboa, 1912. Observemo-la antes do título: um mar de guarda-chuvas numa avenida orlada de árvores. Não se vê um único ser humano. O dia é escuro, os guarda-chuvas negros, as árvores também. Os outros elementos são negligenciáveis. Não há prédios, automóveis, apenas ao fundo, mas centrado na imagem, um poste despido.
Reportagem? Sim. Benoliel era um repórter extraordinário. As suas fotografias elevam-se acima do que se fazia em Portugal na altura. Muitas, como esta, têm um forte carácter artístico.
Esta imagem inquieta-me como homem, pois tem a instabilidade própria da linguagem icónica (o que quer isto dizer?, onde me leva esta imagem?,o que quer ela de mim?, porque me fala assim?). Questiona-me como historiador frustrado, historiador que não fui depois de feito o curso de História, pois me sugere a tragédia da 1ª República, de que Afonso Costa foi um dos responsáveis (anunciada pelo céu que desaba sobre Lisboa e pelo poste despido, será símbolo de futuro calvário).
Questiona-me também como investigador, no presente, de imagens de multidão. Ela representa a multidão nas suas vertentes mais debatidas no final do século XIX e primeiras décadas do seguinte: misteriosa, anónima, um ser único de uma alma única, a “alma da multidão”. Por causa desta imagem, consciencializei, vejam só, o lugar do guarda-chuva nas representações do indivíduo anónimo e da multidão na grande cidade. Reuni depois dezenas de imagens — fotografias, desenhos, pinturas — em que o guarda-chuva, simples acessório funcional da mulher e do homem na rua, exerce essa poderosa função simbólica na história das imagens do último século e meio.
Eduardo Cintra Torres



