O laço branco da perversão humana



A dimensão fascinante do cinema pode ser uma experiência imperdível, mas de quando em quando verifica-se. É o que acontece como uma realidade que vale a pena sentir, a partir do ângulo visual e narrativo do recente filme «O Laço Branco» (Michael Haneke, 2009) – “É num preto e branco esplêndido que se desenrola este filme impressionante e implacável” («Le Monde»).
A obra demonstra de forma cristalina como, para o bem e para o mal, a família e as comunidades locais podem constituir o micro-sistema onde se gera a ideologia dominante, bem visível na educação das crianças, e muitas vezes se funda a perversão humana.
A esse propósito, Haneke diz-nos que aqueles “que erguem os princípios de maneira absoluta se convertem em verdadeiros monstros. Naquela época, o protestantismo religioso era muito rígido e a educação muito austera. As autoridades eclesiásticas e os pais incutiam às crianças um rigor moral que não aplicavam aos seus próprios actos. As crianças tornaram-se justiceiras porque acreditavam ser a mão direita de Deus. Aconteceu na Alemanha. E esta geração, 20 anos mais tarde, concebeu o Nazismo. Este filme não é apenas relativo às origens desse movimento, mas relativo a todos os terrorismos ideológicos, políticos ou religiosos”.
Um filme particularmente relevante para os profissionais da docência, porque demonstra o papel do professor (na época claro!) na gestão de um certo espaço social que lhe era reservado pelo seu papel empenhado. Um filme que demonstra a capacidade de transgredir a ordem vigente no contexto de um pequeno território e daquele período histórico. Um filme que não se aconselha pela mão cheia de prémios – “O Laço Branco” é um recurso pedagógico para que no futuro não se permitam crimes contra a humanidade.
Adriano Rangel


