Onde pode levar-nos um olhar? Um momento fixado por uma objectiva e capturado na memória: sensorial, digital ou impressa? O que pode dizer-nos um instante feito máscara?
Há uns anos, estava em Hamburgo e, aproveitando a proximidade, decidi ir a Copenhaga. Azar: no dia escolhido, a Dinamarca estava paralisada por uma greve geral. Tivoli encerrado, sereia inacessível pela ausência de transportes, o único autocarro daquele dia para Christiania permitiu evitar o fracasso turístico total.
Fundada em 1971, a Cidade Livre ocupa um complexo de instalações militares abandonadas. O seu compromisso era criar e sustentar uma comunidade auto-governada, onde cada um seria livre de desenvolver e expressar a sua identidade. Ausência de impostos e rendas e estabelecimento de regras por consenso são duas características de um território onde não é reconhecido o direito de propriedade sobre imóveis e são autorizados o consumo e a transacção de drogas leves.
Não surpreende, pois, que o Estado dinamarquês tenha tentado, desde cedo, pôr cobro ao desenvolvimento de um “enclave anarquista”, multiplicando as tentativas judiciais para expulsar os “christianistas”, tidos como perturbadores da paz e da ordem. Mas a “experiência social” foi sobrevivendo.
Regressei a Christiania no início deste ano. Cenário e alguns actores lá continuam, incluindo um transmontano que (sobre)vive vendendo gorros nepaleses alegadamente traficados por um irmão, um “vencido da vida” com vontade de regressar, mas sem condições, e com saudades do sg-filtro (que fumámos), da feijoada e de ler um jornal português… Mas é notório que o argumento está desbotado, envelhecido, fragilizado.
Os habitantes acabaram forçados a pagar impostos, por contrapartida ao fornecimento de água e electricidade. O mercado de derivados da Cannabis Sativa foi encerrado, reduzindo drasticamente o fluxo de visitantes e turistas (e a entrada de dinheiro, provocando danos no tecido económico comunitário). A tensão crescente na relação com as autoridades, a frequente ocorrência de tumultos e o consequente aumento das cargas policiais, foram transformando a Cidade Livre cada vez mais num “bairro-problema” – sob rigoroso controlo governamental desde 2001.
Após anos de negociações, os habitantes de Christiania – que bem podia ser a utópica cidade sem muros nem ameias, cidade do homem, capital da alegria [Zeca Afonso] – estão confrontados com mais uma iniciativa judicial, que ameaça ser decisiva. Para tentar reverter a situação, foi lançada a petição Bevar (preservar) Christiania, que reclamava o direito de utilização colectiva do enclave e que subscrevi no café Manefiskeren. Pelos vistos inutilmente, porque a Cidade Livre estará com os dias contados.
A Justiça dinamarquesa rejeitou recentemente a petição, dando razão ao governo conservador. Ainda decorrem recursos, mas o mais provável é que a “sociedade do consenso” dê lugar às sociedades dos mercados: imobiliário e conexos.
E eis como a memória de um olhar é também memória de aromas e sabores, de línguas e culturas, de liberdade e utopia.
António Baldaia
Charlotte Oestervang: Kim Larsen is homeless and hangs out in Christiania [“Fristaden Christiania 2004-2008” - Verve Books, Copenhaga]