
Já existe comprovação histórica para o facto de Jorge de Sena ter escolhido o itinerário decisivo na sua dedicação à literatura fora do seu país. Por um lado, o poeta soube resistir à ditadura do 24 de Abril; por outro, a seguir ao 25 de Abril, não pactuou com o chico-espertismo dominante em alguma elite intelectual. Foi, pois, com uma larga experiência de exílio que a sua obra foi construída.
Conhecido, essencialmente, como poeta, Sena ambicionou um grande projecto de ficção a que chamaria «Monte Cativo», e que nunca chegou a acabar. «Sinais de Fogo» fez/faz parte dessa ambição. Recentemente (re)publicado (Guimarães Editores), a actual edição foi enriquecida com um texto introdutório onde a viúva, Mécia, desvenda algumas particularidades da relação da ficção com o trajecto e a identidade literária de Sena.
Em «Sinais de Fogo» – primeira parte do que serão as suas «Obras Completas» – a narrativa cruza a experiência individual do protagonista, em crise amorosa, com a experiência mais colectiva do advento da Guerra Civil de Espanha e os consequentes reflexos na realidade do nosso país, sob a ditadura salazarista. Era 1936 e a guerra irrompia como uma realidade vizinha, através das discussões apaixonadas entre os turistas espanhóis que frequentavam as praias portuguesas. Jorge, o protagonista, atinge a idade adulta neste ambiente marcado pelos fogos ardentes das discussões, nas quais vai apurando a sua consciência de liberdade e revelando a sua queda para a poesia.
Adriano Rangel