Tsunami de que não há memória

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Sala de partos do Hospital de S. João. Nasce o meu filho, às 17 horas e 22 minutos, de Quinta-feira, do dia 22 de Outubro de 2009. Assisto ao parto e acabo de gravar na memória o momento mais feliz da minha vida. Apesar de estar convicto que é inesquecível, o registador de memória digital vem comigo e não pára de trabalhar. Sei lá se algum pormenor me irá escapar! Já tenho dezenas de imagens gravadas: o primeiro choro, a primeira pesagem, a primeira roupa, tudo o que é “primeiro”, está armazenado no banco digital.

“Logo que ele nasça, avisa!” — nas últimas semanas, ouvi sempre isto com um sorriso em tom de pena capital. É melhor não arriscar, por isso, cá vai o André na onda digital, a transmitir o seu primeiro sinal de vida por SMS, e-mail, Facebook e Twitter. As respostas não demoram e chegam num violento tsunami. Só sobrevivi à primeira onda. As outras engoli-as sem saborear.

Mas a família chega e traz-me novamente à tona, salvando-me com beijos e abraços fraternos. Consigo estar à superfície uns minutos.

Está na hora de ir embora, mas ainda há tempo para mais um mergulho de registos aqui e ali, do papá paparazzi.

Regresso a casa tarde, encharcado de mimos de uma tempestade que insiste em não parar. O meu corpo já não me deixa responder, mas ainda falta a bisavó, que não tem culpa de já não ter força nem paciência para estas tempestades modernas.

Chego a sua casa e lá está ela sentada no seu cantinho habitual.

— Bisavozinha, trago aqui o seu bisnetinho!

Ela sorriu e apontou para a parede onde, com espanto, deslumbrei a fotografia do André, afixada com pioneses, numa moldura de cortiça improvisada.

— Obrigada paizinho, mas fui mais rápida do que tu!

Este episódio apesar de cómico, despertou em mim alguma reflexão, porque, na verdade, a bisavó já contempla o sol da imagem, enquanto que o pai continua na tempestade…