Vencer a noite

Em Novembro de 2004 as operárias da fábrica têxtil “Afonso” (Arcos de Valdevez) depararam-se com a ameaça de encerramento desta unidade industrial. Os accionistas alemães tentaram efectuar a deslocalização para a República Checa, encerrando a fábrica e tentando levar consigo as máquinas e as matérias-primas.
No entanto, foram “surpreendidos por algumas funcionárias que rapidamente montaram um piquete à porta da fábrica, saíram escoltados pela GNR local e voltaram à Alemanha, de onde se dizem dispostos a prescindir da sua posição por um valor simbólico desde que não tenham que assumir as indemnizações devidas aos funcionários da empresa”.
As cem trabalhadoras assumiram então a direcção da empresa e fizeram vigílias diárias, evitando que os antigos patrões levassem as máquinas.

Quando fui fotografar estas operárias, a laboração da fábrica decorria com normalidade, os prazos de entrega das encomendas estavam a ser cumpridos e não havia salários em atraso. Vivia-se um ambiente de regozijo e orgulho pelo facto de estarem a conseguir cumprir os seus objectivos.

Ficou a memória do registo fotográfico destas mulheres audazes e determinadas. Rostos silenciosos inclinados sobre as máquinas e mãos flutuando com gestos rápidos e certeiros. Emanava delas uma sabedoria indelével de quem quer vencer a noite a todo o custo.